SENDA - CULTURA, FILOSOFIA E ARTES MARCIAIS PARA SERVIR O MUNDO

INTRODUÇÃO

(OBSERVAÇÃO: Este estudo foi extraído da dissertação de mestrado "Shaolin à Brasileira: Estudo sobre a Presença e a Transformação de Elementos Religiosos Orientais na Arte Marcial Chinesa Praticada no Brasil", defendida em 2004 no Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP pelo professor da Senda Rodrigo Wolff Apolloni. A dissertação completa, em pdf, está disponível aqui.)

A Placa Votiva é, sem dúvida, o menos compreendido dos ícones do Shaolin do Norte. O motivo é simples: ele não apresenta figuras, mas exclusivamente ideogramas. Sua tradução, como pudemos constatar, não é das mais simples, mesmo para conhecedores da escrita e da filosofia chinesa (o nome que adotamos para denominá-lo, um tanto quanto “gongórico”, dá um indício dessa dificuldade). De acordo com o mestre acupunturista Pan Yi Bo (1), responsável pela tradução,1 os ideogramas são arcaicos e estão dispostos de acordo com uma configuração “clássica”, que implica em um sentido mais simbólico que o da escrita comum. Apesar do hermetismo, as placas estão presentes em várias academias do Sistema Sino-Brasileiro de Kung-Fu (ver fotos abaixo) (2). Em nossa pesquisa, encontramos o elemento em três academias - de Chan Kowk Wai, Lee Chung Deh e Rogério Leal Soares -, com diferenças mínimas entre si (de cor e tamanho).

Placas Votivas nas academias de Lee Chung Deh, Chan Kowk Wai e Rogério Leal Soares

Normalmente, porém, essas placas são pintadas em vermelho, cor presente em muitos elementos chineses de natureza religiosa, como altares e ícones. Em seu estudo a respeito da iconografia religiosa chinesa, Keith Stevens examinou atentamente as placas e levantou uma série de informações importantes para a nossa pesquisa:

Placas são freqüentemente encontradas nos altares chineses. Fabricadas em madeira, apresentam muitas variações locais e estilos diversos. Elas também possuem um número significativo de papéis e funções. Os chineses geralmente acreditam que toda pessoa possui três almas. Quando uma pessoa morre, sua primeira alma é enterrada com o corpo, a segunda é conduzida à sua placa ancestral e a terceira é enviada para o Submundo, para julgamento e eventual renascimento. As placas normalmente mais encontradas, portanto, são as ligadas à ancestralidade. Cada placa representa o repositório para o espírito de uma pessoa ou de marido e mulher. Elas geralmente são mantidas em casa, onde são reverenciadas pelos descendentes [da pessoa falecida]. Alternativamente, podem ser encontradas em salões especiais nos templos budistas. Os benefícios obtidos com as preces ditas pelos monges auxiliam os espíritos dos mortos no Além; ao mesmo tempo, desobrigam as famílias do oferecimento regular de incenso aos espíritos que habitam nas placas. Há, também, placas ancestrais dedicadas a uma geração inteira dentro de um clã. Elas são mantidas com placas de outras gerações no altar principal do templo do clã. Outras placas nos altares representarão uma divindade (ou grupo de divindades). Estas são geralmente vistas apenas em templos rurais, onde o custo do entalhe de uma imagem é muito alto para a comunidade. Entretanto, várias podem ser vistas em altares de templos mais ricos, ficando aos pés da divindade principal e funcionando como representações adicionais. Finalmente, há placas muito superiores [em qualidade] - raramente vistas hoje em dia - dedicadas ao imperador da época em que foram produzidas. O título imperial não estava na placa; ela simplesmente lhe desejaria vida longa. Essas placas costumavam ser obrigatórias em todos os principais templos taoístas e budistas. Elas ficavam na extremidade do altar principal. Através das placas, os oficiais locais saudavam o imperador em seu aniversário e no Ano Novo Lunar. (3)

 

A primeira coisa a observar em relação às placas do Shaolin do Norte é sua proximidade dos altares. Em todas as academias onde as placas foram encontradas (São Paulo, Florianópolis e Curitiba), elas estavam relacionadas ao altar padrão, de forma direta (a placa no centro do altar) ou indireta (ao lado). A partir de uma leitura das partes que compõem a placa é possível verificar se há outros pontos de contato entre esse elemento iconográfico e as informações de Keith Stevens.Uma leitura geral da placa indica uma forte presença confucionista, com destaque para a recordação de ancestrais importantes e de caráter divino.

O Confucionismo, doutrina filosófica (e, mais tarde, religiosa) fundada no século IV a.C. por K´ung Tzu ou Confúcio (551 – 479 a.C.), prega a retidão moral e o respeito à hierarquia e aos ritos. Suas premissas, de acordo com segundo Keith Stevens, são a Piedade Filial (Hsiao), Reverência Fraternal (Ti), Lealdade (Hsin), Polidez, Propriedade
(Li), Honradez (I), Integridade (Lien) e Modéstia, Continência (Chieh) (4). São valores que permeiam o código de ética chinês, sendo aplicáveis, de modo especialmente apropriado, às atividades de caráter marcial. A seguir, vamos interpretar cada um dos elementos da placa, de acordo com a numeração determinada na figura abaixo:

 
Entendimento dos termos da Placa Votiva
(1) – Título – Os ideogramas de “abertura” da placa do Shaolin do Norte (leitura da esquerda para a direita) são, seguramente, a melhor indicação do direcionamento confucionista desse elemento iconográfico. Literalmente, segundo o médico acupunturista Pan Yi Bo (tradutor), os ideogramas podem ser traduzidos por algo como “Mestre Exemplar, Modelo Eterno”, título tradicionalmente atribuído a Confúcio.

(2) – Código Ético 1 - Nessa coluna (leitura de cima para baixo), segundo o tradutor, está delineado o papel do verdadeiro mestre de uma arte marcial. Literalmente, os ideogramas poderiam ser traduzidos por algo como “Ensinamento de Cultura, Filosofia e Artes Marciais – para Servir o Mundo”. Novamente, a presença é confucionista, ligada, aparentemente, aos valores fundamentais de Reverência Fraternal (Ti), Propriedade (Li), Honradez (I) e Integridade.

(3) – Código Ético 2 – Nessa coluna (leitura de cima para baixo), segundo o tradutor, está uma afirmação da qualidade da arte ensinada. Literalmente, os ideogramas podem ser traduzidos por algo como “Conhecimento correto, forma, maneira, técnica, princípios – arte marcial ministrada é original e correta.” Aqui, os elementos se ligam, em um primeiro momento, à afirmação da qualidade do mestre; a “tradução confucionista” se dá pela associação com os princípios de Lealdade (Hsin) – para com os alunos, Propriedade (Li) – dos conhecimentos, Honradez (I) – na afirmação chancelada, por escrito, dos conteúdos que o mestre domina, e Integridade (Lien) – na correção e originalidade dos ensinamentos.

(4) – “Oferecer” - Aqui, mais uma vez, está presente um elemento confucionista. “Oferecer”, sem dúvida, remete ao mandamento confucionista de “Servir o Mundo”.
(5) – “Servir” – A palavra é a própria essência do Confucionismo, na razão em que remete à virtude e ao desprendimento como qualidades fundamentais ao ser humano correto.
(6) – “Zhou Tong” –. A primeira referência encontrada relaciona Zhou Tong (o “Pequeno Rei”) a Yue Fei (14). Ele teria ensinado ao general de Song as técnicas de um estilo de Kung-Fu chamado Chuojiao (5). A segunda referência é literária: Zhou Tong é um dos personagens da novela clássica “Os Fora-da-Lei do Pântano” (também conhecida como “Crônicas da Margem das Águas”) (6), escrita entre 1290 e 1400 por Shi Nai’na e Luo Guanzhong. A novela se refere a fatos reais ocorridos no período de vida de Yue Fei.
(7) – “Zu Lai Tzu” – De todos os componentes da placa, este foi o de tradução mis incerta. Em princípio, Zu Lai é um termo budista chinês oriundo da transliteração do termo indiano Vairocana, “aquele que vem com o sol”. No Budismo Mahayana, Zu Lai (Vairocana) seria a contraparte cósmica de Sakyamuni (7). O mais intrigante, em relação ao termo, é a terminação Tzu, que, em princípio, poderia ser traduzida como “Venerável” ou “Sábio”. Não acreditamos que essa terminação possa ser aplicada à divindade, uma vez que, normalmente, designa seres humanos. Além disso, há que se considerar o contexto da placa: em um elemento iconográfico quase que exclusivamente confucionista (à exceção dos elementos Ta Mo e Sao Lin, relacionados a uma existência temporal), a presença de uma figura budista altamente esotérica parece incongruente.
(8) – “Zhang Xian” – Genro de Yue Fei (14), se manteve leal a ele. Acabou preso, executado e sepultado junto com o sogro e com o cunhado, Yue Yun (8).
(9) – “Yue Yun” – A referência, nesses ideogramas, é a um indivíduo, mais propriamente a Yue Yun, filho mais velho de Yue Fei (14). Yue Yun viveu na passagem entre o período das chamadas “Cinco Dinastias e Dez Reinos” e a Dinastia Song (960 – 1279). As cinco dinastias foram Liang Posterior (907 – 923), Tang Posterior (923 – 936), Jin Posterior (936 – 946), Han Posterior (947 – 950) e Zhou Posterior (950 – 960); os dez reinos foram Wu (902 - 937), Shu Inicial (907 - 925), Wu Yue (908 - 978), Min (909 - 946), Tang do Sul (937 - 975), Chu (927 - 951), Han do Sul (917 - 971), Nan Ping (925 - 963), Shu Tardio (934 - 965) e Han do Norte (951 - 979). A época, que sucedeu à Dinastia Tang (9), e antecedeu à Dinastia Song, foi de violentos confrontos pelo poder. Por volta de 1130, as tropas da Casa de Song, lideradas pelo general Yue Fei, haviam imposto sérias derrotas ao reino de Jin e estavam prestes a dominar a cidade de Kaifeng. Por instigação de um traidor chamado Qin Hui, o imperador Gao Zong foi convencido de que deveria abandonar o combate e adotar uma estratégia de paz e alianças. Por conta disso, Yue Yun, Yue Fei e Zhang Xian (9, 14 e 8) foram chamados a Nanjing, onde acabaram presos. Foram executados em 1141 (10) (veja foto abaixo) (11).
Tumbas de Yue Yun, Yue Fei e Zhang Xian em Zhejiang
(10) – “Genealogia Shaolin” (12) – A finalidade do texto central da placa do Shaolin do Norte é indicar a origem do estilo praticado. Tanto, que os dois primeiros ideogramas (leitura de cima para baixo) são Sao e Lin – Shaolin. A coluna ainda relaciona os nomes de Ta Mo (Bodhidharma) (13) como fundador da arte marcial e, também, o de Yue Fei/Yue Wei (14).
(11) – “Sao Lin” (Shaolin) – “Bosque [do Pico] Shao ”, nome do mosteiro construído por volta de 495 na cadeia de montanhas Song (Songshan), em Henan (14).
(12) – “Fundador” – Os dois ideogramas identificam Ta Mo (ver item 13) como fundador da marcialidade em Shaolin.
(13) – “Ta Mo (Bodhidharma)” – Considerado o patriarca do Zen Budismo, Bodhidharma teria chegado à China no início do século VI. Ele teria vivido no mosteiro de Shaolin por sete anos, entre 520 e 527. Segundo a tradição das artes marciais, ele teria ensinado aos monges uma série de técnicas respiratórias que estariam na base do estilo de luta originário do templo (15).
(14) – “Yue Fei/Yue Wan” – Como observado no item 9, Yue Fei foi um general da Dinastia Song. Ainda sobre este personagem, vale observar que ele foi alçado à condição de divindade pela religiosidade popular. Herói nacional, passou a ser reverenciado como padroeiro dos exércitos e, no norte da China durante a primeira metade do século XX, como “Deus da Guerra”. Em tempos recentes passou, também, a ser a divindade tutelar de mercadores e lojistas (em Beijing, ainda hoje os lojistas chacoalham seus ábacos pela manhã para homenagear Yue Fei) (16).

NOTAS:

1 Tradução feita em fevereiro de 2004 e acompanhada pelo autor (Rodrigo Apolloni).
2 Foto 1 feita em junho de 2004. Fotos 2 e 3 feitas em junho de 2003. Acervo do autor. As placas 1 e 3 têm fundo vermelho. A placa 2 tem fundo amarelo “envelhecido”. Em todas, os caracteres foram escritos em preto.
3 STEVENS, K., “Chinese Gods…”, p. 23. Trad. livre do inglês.
4 STEVENS, K., “Chinese Gods…”, p. 82.
5 Inf. disp. no site chinês <http://www.chinavoc.com/kungfu/schools/cata_chj.asp> (c. 21.06.2004)
6 Para um estudo acadêmico da obra, ver
<http://clausius.engr.utk.edu/planetc/books/outlaws/text/history.html> (c. 21.06.2004)
7 Ver <http://concise.britannica.com/ebc/article?eu=406998> (c. 21.06.2004)
8 Inf. disp. em <http://www.chinatravelclub.com/topsight/19.asp> (c. 21.06.2004)
9 Sobre a Dinastia Tang, ver cap. 2 desta dissertação.
10 Informações em <http://www.allempires.com/empires/song/song1.htm> (c. 21.06.2004)
11 À esquerda, tumbas; à direita, ícones em pedra representando os personagens. Imagens extraída de http://www1.china.org.cn/features/photos/zhejiang/zjcity.htm#> (c. 21.06.2004)
12 Por razão de editoração, dividimos a coluna em dois blocos. A leitura deve ser feita de cima para baixo, começando pelo bloco da esquerda.
13 Sobre Ta Mo, ver cap. 2 desta dissertação.
14 Sobre Shaolin, ver cap. 2 desta dissertação.
15 Sobre a historicidade do “mito de Ta Mo”, ver o cap. 2 da dissertação de APOLLONI, "Shaolin à Brasileira...".
16 STEVENS, K., “Chinese Gods…”, p. 128.