Estudo sobre
o simbolismo da saudação encontrada na ritualística do Shaolin do Norte
R.W. Apolloni
A saudação
é comum entre personagens de filmes de Kung-Fu - o notável, no caso das academias
de Kung-Fu do Shaolin do Norte, é que ele também é dirigido ao altar central.
Trata-se, segundo os autores do livro "Kung-Fu Shaolin do Norte - Técnicas
Básicas 1º e 2º Kati" (publicação oficial
da Academia Sino-Brasileira de Kung-Fu do ano de 1995), de uma “variação
da saudação budista utilizada no mosteiro em que o estilo se desenvolveu”.
Eles explicam que a saudação está relacionada ao Taoísmo, e que, enquanto a
mão fechada “significa a força física, o princípio ativo da energia – ‘yang’,
o caráter animal (tigre)”, a mão espalmada representa “o domínio das
faculdades internas, o princípio passivo da energia, ‘yin’, o caráter ‘espiritual’
(dragão) do ser humano”.[1] Outra explicação da saudação
pode ser encontrada em um site de seguidores de um mestre de Kung-Fu Shaolin
chamado Chang Dsu Yao. Eles politizam seu significado:
primeiro, o [punho] esquerdo fechado
denota empenho, liberdade, enquanto a mão direita aberta significa paz e respeito
pela liberdade. (…) Mais tarde esta saudação passou a representar Ming (...)
Ming era, também, o nome de uma dinastia chinesa em nome da qual praticantes
de Shaolin lutaram por muito tempo contra a Dinastia Manchu Ch’ing. Então,
a saudação também representava a marca de identificação entre patriotas chineses
que eram particantes de Kung-Fu.[2]
Vale observar,
no texto, a referência à “forma” das mãos, que é invertida – no caso brasileiro,
a mão fechada é a direita, e a aberta, a esquerda. Em princípio verifica-se,
aí, apenas uma mudança de perspectiva em relação ao observador, que não seria
o indivíduo que saúda, mas sim o que é saudado - “A” cumprimenta “B”: para este,
o punho fechado daquele estará no lado esquerdo do campo de visão (fig. 31 da
dissertação).
Os autores
ainda apresentam o cumprimento budista de que teria derivado a saudação - nele,
o braço esquerdo é colocado de forma a que a mão fique posicionada verticalmente
na altura do coração, com a palma voltada para a direita; o braço direito é
colocado horizontalmente, na altura do umbigo, e a mão (a palma voltada para
cima) apontada para a esquerda, quase tocando o antebraço à meia altura. Eles
também se referem a uma forma “fraterna”, na qual a mão esquerda envolve a direita.
Essa saudação
é de uso comum pelos praticantes de Shaolin do Norte do Brasil e de outros países.
Uma imagem das mãos unidas também compõe o brasão da Confederação Brasileira
de Kung-Fu e de várias federações, como a paulista e a paranaense.[3] Uma pesquisa junto a fontes
acadêmicas não permitiu identificar a origem ou o significado dessa saudação.
Nossa primeira
suspeita, de que seria uma forma de identificação entre integrantes do movimento
sectário chinês, não se confirmou. Barent Ter Haar[4] aponta formas de três dedos
(polegar, indicador e médio) como sinais básicos de reconhecimento nas tríades.
Eles seriam feitos através da apresentação dos dedos esticados ou, então, pela
a apreensão de objetos como copos, cachimbos etc. Segundo o autor, as tríades
desenvolveram códigos que incluíam cortes de cabelo, roupas, modos de alimentação
e recitações. Dian Murray[5] também se refere a sinais
de reconhecimento nas tríades: modos de vestir, maneiras de iniciar a queima
de fumo e ópio em cachimbos e a colocação de objetos em locais específicos de
salões. Não há, nessa obra, referências a sinais com as mãos.
A pesquisa
sobre a origem religiosa da saudação também foi infrutífera. Em uma consulta
à obra de Ingrid Ramm-Bonwitt,[6] não encontramos gesto semelhante
nos rituais ou na iconografia religiosa budista ou hinduísta. Por fim consultamos
o estudo de Mu & Li,[7] que relaciona formas chinesas
tradicionais e modernas de comunicação não-verbal, entre elas saudações. Não
há referências ao objeto de nossa pesquisa.
O esgotamento das fontes de informação a respeito do sinal religioso/simbólico e institucional do cumprimento em si, porém, não cobre o assunto com um insondável manto de mistério. Por incrível que possa parecer, talvez o significado da saudação seja o mais prosaico: apenas uma saudação de uso comum! Ainda que não tenhamos esse dado no estudo de Mu & Li, acreditamos, com base na observação de filmes chineses – em que o cumprimento aparece em um número não desprezível de situações, praticado por personagens dotados de habilidades marciais ou não – que se trate de uma saudação tradicional comum, de mesmo significado do cumprimento tradicional do Ocidente,[8] mas esvaziada de força semântica junto à atual sociedade chinesa.
Confira a saudação tradicional do estilo Shaolin do Norte em vídeo
NOTAS AO ARTIGO
[1] "Kung-Fu Shaolin do Norte - Técnicas
Básicas 1º e 2º Kati", p. 43 e 44.
[2] <http://www.geocities.com/Tokyo/1321/salute.html>
(c. 31.01.2004). Trad. livre do inglês.
[3] Na capa de HUNG & KLINGBORG, "Northern Shaolin..."
há uma foto do mestre fazendo a mesma saudação.
[4] HAAR, em "Ritual & Mithology of…”, p. 440
[5] MURRAY, em "The Origins...", p. 94.
[6] RAMM-BONWITT, I., "Mudrás - As Mãos como Símbolo
do Cosmos", 1ª ed., São Paulo: Editora Pensamento, 1995, 273 p.
[7] MU, Z. & LI, G., "Chinese Emotion and Gesture",
publ. pela School of Commercial and Economic Laws (Gotenburgo), in <http://www.ling.gu.se/~biljana/gestures2.html>
(c. 05.02.2004).